life in technicolor
As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa. Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes. Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas. No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.
(A menina que roubava livros, Markus Zusak)
Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome. Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores. Ando de olhos abertos e atentos a tudo que me rodeia, suas infinitas tonalidades e nuances. E assim, atenta, meu coração se encheu de carinho ao reparar o colorido da minha festa de aniversário, cheia de amigos e sorrisos, verdes-cetim e azuis-nuvem, brancos luminosos e vermelhos sonoros.
Ainda no começo do mês minha mãe resolveu colocar frutas para os passarinhos da vizinhança e eles se tornaram uma visita constante, vêm com suas asinhas misturadas de amarelo e branco e até se aventuram pela cozinha, vezenquando. Enchem o meu dia-a-dia de poesia e me fazem esquecer que é inverno lá fora e o céu não parece mais ter sido lavado a mão: é um cobertor cinza chumbo molhado, balançando ao sabor do vento.
Se a chuva dá uma trégua, saio de casa e só volto em plena madrugada, o salto fazendo toc toc no asfalto preto, os olhos do porteiro acordam ainda escuros de sono. Penso que tudo tem uma tonalidade enegrecida a essa hora do dia, ao contrário de pouco antes, quando os botecos, restaurantes e casas de amigos se enchem de vozes e rostos, num mil cores que encanta, confunde e me deixa sem saber para onde olhar.
Mas os tons por aqui não desbotam nem quando o céu desaba. Em dias assim eu não ponho os pés pra fora, mas convido a felicidade para entrar, e ela vem, com seu amarelo-verão. Assisto à patinação artística na tv, devoro chocolates com avelã e danço pela casa, vendo a cor da parede se transformar num borrão. Vivo um amor de cinema e quando estamos juntos meu mundo ganha tons de um vermelho berrante, avassalador.
Dia desses era domingo, tive que trabalhar oito horas numa sala fechada e o tempo tinha tudo pra passar em preto e branco. Mas abri um livro novo e as palavras eram tão bonitas que a tarde ficou furta-cor. E assim a vida ensina que nada é tão ruim ou sem cor quanto parece, às vezes só é preciso olhar por outro ângulo.